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MIDITEC 25 anos parte I: como uma incubadora criou gerações de empreendedores no setor de TI em SC

Em 2023, ao completar 25 anos de atividade, a iniciativa catarinense que está entre as 5 melhores do mundo transformou-se em uma rede que atende dez incubadoras regionais e mais de 70 startups de várias regiões de Santa Catarina.
 
Foto: Divulgação MIDITEC

Nesta primeira parte de reportagem especial, destacamos a importância de consultorias e mentorias para o desenvolvimento de negócios inovadores. 

Como era a rotina de um empreendedor no setor da tecnologia antes de Santa Catarina e Florianópolis serem consideradas uma referência nacional – e até internacional? Em uma era em que não existiam aceleradoras, investidores-anjo, fundos de investimento e programas de inovação aberta, de que maneira era possível transformar uma ideia em um “negócio de base tecnológica”? Estamos falando de uma era quase pré-internet (ou pelo menos sem a disponibilidade de conexão banda larga), em que uma mesa, um computador e um aparelho de fac-símile eram itens de luxo para empresas iniciantes.

Na Florianópolis do final do anos 1990, o mercado de desenvolvimento de tecnologia começava a dar sinais de vocação econômica pelas EBTs (empresas de base tecnológica) que surgiam a partir da Universidade Federal de Santa Catarina, de projetos desenvolvidos com suporte da Fundação Certi e da incubadora Celta, além da “geração pioneira” de empresas que levou à fundação da Associação Catarinense de Tecnologia (ACATE), em 1986.

Em um movimento liderado pelo ex-presidente da ACATE, José Fernando Xavier Faraco (também membro do Conselho do Sebrae de Santa Catarina), começou a surgir na década de 1990 o projeto dos Micro Distritos Industriais (MIDI), que na capital catarinense foi direcionado ao setor de TI. Com ele, deu-se origem em 1998 ao MIDI Tecnológico, uma incubadora de empresas mantida desde então gerida pela ACATE com apoio e recursos do Sebrae/SC – e que se transformou, ao longo de 25 anos, em um dos principais formadores de empresas tech em Santa Catarina. 

Durante as duas primeiras décadas, quando esteve mais voltada à região da Grande Florianópolis, a incubadora foi aprimorando uma metodologia que ajudou mais de 280 startups, como a RD Station, Ahgora, Pixeon, Arvus, Knewin, entre outras. Em 2023, ao completar 25 anos de atividade, é uma rede que atende dez incubadoras regionais e mais de 70 startups de várias regiões de Santa Catarina.

As gerações empreendedoras que hoje usufruem de programas de incubação, aceleração, open innovation, fundos de seed e venture capital, e que se apresentam em eventos para milhares de pessoas (como o Startup Summit) se beneficiam diretamente da visão dos líderes empreendedores que os antecederam e criaram empresas de sucesso ao longo da história da incubadora.

ESCOLA DE EMPREENDEDORES

O empresário Alexandre D’Ávila, vice-presidente da ACATE no ano em que o MIDI Tecnológico foi criado (e posteriormente presidente, entre 2000 e 2008), conta que desde o início a ideia era criar um modelo diferente de incubação – e isso passava pela otimização do tempo das empresas nas salas do condomínio da ACATE (que já tinham filas de espera nos primeiros anos) e pelo olhar para o desenvolvimento pessoal dos empreendedores.

“Não era apenas para pensar na empresa friamente, mas nas características para fortalecer o empreendedor”, comenta o ex-presidente da ACATE Alexandre D’Ávila. / Foto: Divulgação Fiesc

“O primeiro ponto que discutimos: a hospedagem deve ser mais curta e gerar uma passagem assertiva. Vamos oferecer mesa, computador e linha telefônica – diferente do usual em incubadoras na época -, mas depois de um tempo se gradua e entra o próximo. Selecionávamos os modelos de negócios que poderiam ser mais rápidos para escalar – e aí as empresas entravam a fundo no mercado para estudar e desenvolver o produto”, lembra Alexandre.

Fundador da empresa de tecnologia Cebra, que começou no Celta, Alexandre já tinha uma bagagem como incubado – e quis aplicar como um extra ao processo a mesma lógica que era ensinada no programa de desenvolvimento Empretec, oferecido pelo Sebrae/SC.  

“Fiz o Empretec em 1991 e me marcou o treinamento na questão individual. Não era apenas para pensar na empresa friamente, mas nas características para fortalecer o empreendedor. No começo, quem entrava no MIDITEC já fazia o Empretec, para ter essa bagagem robusta”, comenta.

“Na nossa época, ter um lugar para sentar, uma sede, uma sala de reunião para receber um cliente já era um ganho”, recorda Sergio Viola, sócio-diretor da JExperts, que se tornou incubada no MIDITEC em 2005 para desenvolver um produto para gestão de projetos de forma 100% web – algo muito inovador para a época. A empresa surgiu em 2002 em Florianópolis como uma fábrica de software, mas os sócios preferiram trabalhar com o desenvolvimento de produtos próprios.

A partir da incubação, destaca Sergio, “o que antes era mais uma reunião de sócios e uma conta corrente comum, passou a ter cara de empresa. Os fundadores, que tinham perfil muito técnico, tiveram acesso a vários treinamentos e conteúdos que ajudaram a formatar a empresa para o período de crescimento”. O produto desenvolvido no processo de incubação foi ao mercado em 2006 e, no ano seguinte, conquistou uma grande empresa do Brasil, que até hoje é cliente. Entre 2007 e 2009, a receita da JExperts cresceu cerca de 80% ao ano.  

Naquela época, comenta, “não existia a quantidade de aceleradoras que existem hoje, não existiam anjos para fazer pequenos investimentos, era uma luta muito mais isolada de cada empresa. O MIDI na época era uma ilha para os pequenos empreendedores da área de TI, com seus consultores e dirigentes. Eles de certa forma nos protegiam, como se fôssemos alunos no jardim de infância aprendendo a ser empresa”.

Sergio Viola, ex-incubado com a JExperts na década de 2000: “O MIDI era uma ilha para os pequenos empreendedores de TI, com os consultores e dirigentes – eles de certa forma nos protegiam”

A IMPORTÂNCIA DOS “PADRINHOS”

Outro ponto fundamental, diz o ex-presidente Alexandre D’Ávila, era que a incubadora fornecesse um padrinho, um mentor para os empreendedores, que acompanhasse de perto os principais indicadores e identificasse caminhos. Durante muitos anos – antes da incubadora contar com uma ampla rede de parceiros e mentores – alguns dos principais responsáveis por esse papel foram os consultores Sergio Fantazzini e Marcos Regueira. 

“O Fantazzini (falecido em 2021) era o cara que sentava com os empreendedores e refazia os planos de negócios. Era a figura que ajudava a empresa a acelerar, mesmo sem um modelo formatado. Há uma geração de empreendedores com uma dívida de gratidão por tudo que ele fez, que era muito além do que ele teoricamente deveria entregar”, comenta Alexandre. 

Outra figura histórica no desenvolvimento do MIDITEC, Marcos Regueira destaca o papel do consultor: “ele se destacou pela ascendência muito forte nos incubados e pela empatia. Ele levava pela mão e vestia a roupa de cada empresa que ajudou. Era um conjunto de virtudes, relacionamento e dedicação que dava à incubadora um patamar muito elevado de serviço”.  

A alta carga de consultoria prestada pelo MIDITEC (do financeiro ao jurídico, marketing, vendas e outros setores) ajudou a destacar nacionalmente a incubadora, ressalta Marcos Regueira. “Fui gestor desse programa por mais de 15 anos, com uma rotina de submissão mensal pela ACATE dos relatórios de acompanhamento das empresas, das cargas de consultoria, tudo detalhado”.

No processo, as incubadas que eram mais “rebeldes” aos processos de capacitação e consultorias acabavam tendo dificuldades maiores para se estabelecer no mercado. Foi o caso de uma das primeiras incubadas que recebeu investimento externo, mas que resistia à consultoria jurídica da incubadora. “A empresa acabou assinando um acordo de venda com exclusividade, mas fechou seis meses depois porque quem era para vender não vendia”, recorda o consultor. 

Sede atual do MIDITEC, no Sapiens Parque, em Florianópolis. Foto: Divulgação

CONSULTORES: UM TIME PARA AJUDAR EMPRESAS A ESCALAR

Hoje, o MIDITEC espera das startups um perfil de equipe complementar: “não adianta startup com três amigos engenheiros que saem a ‘engenheirar’. Tem que ter um de tecnologia, um que goste de vender e outro para administrar – essas três áreas precisam estar cobertas”, aconselha. Este minucioso processo de acompanhamento – da seleção à graduação das empresas – tornou-se um legado para outras incubadoras do estado. “Essa metodologia fortaleceu muito as incubadoras regionais, porque traz processos bem definidos. Tudo isso está registrado e sendo compartilhado”, comenta Regueira.

Com o tempo, o MIDITEC passou a incorporar mais profissionais especialistas nas áreas-chave para desenvolvimento das empresas. Hoje, as incubadas têm à disposição consultoria com mais de 90 mentores em mais de 10 áreas do conhecimento (desde gestão financeira, área contábil, marketing, recrutamento, entre outras), além de equipe interna com acesso a um sistema de dados com o desempenho mensal das empresas.

Envolvido na incubadora desde os primeiros anos, o empreendedor contábil Ismael Rogério da Silva, fundador da Softcon, atua como consultor junto às empresas do programa há mais de 15 anos. Entre os aprendizados ao longo deste período, ele destaca a rápida curva de aprendizado dos empreendedores. “Quanto mais acompanhava os erros e acertos das empresas, mais rapidamente a roda girava e outros empreendedores poderiam receber informações sobre essas dores e acertos já vividos”.

Na área contábil e financeira, Ismael acredita que o legado da incubadora foi ajudar as startups a desenvolverem uma noção de boa gestão e governança corporativa adequada a cada estágio de desenvolvimento. “Observamos neste período que algumas incubadas e graduadas já recebiam investimento, até mesmo internacional, dispensando processos como due dilligence porque estavam com toda a gestão organizada. Além disso, muitos empreendedores resilientes, que erraram lá atrás, não tinham medo de repassar esse aprendizado aos mais novos e assim evitar a  repetição dos problemas”. Atualmente, a Softcon é uma das patrocinadoras do MIDITEC e do programa de pré-incubação Jornada Startups, mais uma parceria entre Sebrae/SC e ACATE, e que está na terceira edição, fornecendo conhecimento e mentorias online para turmas de quase 150 empresas anualmente. 

O consultor contábil Ismael Rogerio da Silva: “quanto mais acompanhava os erros e acertos das empresas, mais rapidamente a roda girava e outros empreendedores recebiam informações sobre essas dores e acertos já vividos”

“O contato com consultorias e especialistas que já vivenciaram as dores daquele respectivo momento, gera um atalho que impulsiona as empresas. As startups submetidas à metodologia MIDITEC alcançam um nível de maturidade para enfrentar as dores da validação de um produto, tração e escala”, resume. 

O advogado Rafael Peixoto Abal, consultor jurídico da ACATE e do MIDITEC, destaca a “cultura do apoio” entre as startups como um dos principais diferenciais do programa. “Dar apoio às startups nas mais diferentes áreas é essencial mas, além disso, o MIDITEC se tornou referência em cultura empreendedora. Quando você coloca founders de empresas diferentes para trabalhar em conjunto, percebe que eles se ajudam, pois passam por problemas semelhantes e compartilham soluções. E isso não ocorre somente entre os incubados – empresários que já são reconhecidos pelo mercado voltam para apoiar os empreendedores. Mais do que todo o suporte técnico, essa interação é fundamental”, ressalta. 

Consultor e mentor do MIDITEC desde 2009, o advogado acompanhou diversas gerações de empreendedores – inclusive algumas que se tornaram referência para o ecossistemas e já foram vendidas. Ele lembra os primeiros passos da RD Station – que começou no MIDITEC quando ainda se chamava Resultados Digitais e tinha apenas dois sócios, Eric Santos e Pedro Bachiega (os outros três sócios-fundadores chegariam em seguida). “Eles cresceram tão rápido que saíram até antes do prazo recomendado para incubação”, destaca. 

Rafael Abal lembra de outro caso, em que sugeriu a um empreendedor entrar no processo seletivo da incubadora, antes de ela ir efetivamente ao mercado, em função de um modelo de negócio ainda pouco maduro. “A startup passou no MIDITEC, foi graduada, gera cerca de 150 empregos em Florianópolis e recentemente foi adquirida por uma outra grande companhia de tecnologia da cidade. Imagine o impacto positivo que o processo de incubação legou à empresa, que poderia nem ter chego ao mercado caso não tivesse esse apoio e acompanhamento para desenvolver um modelo de negócio sustentável”, ressalta o consultor jurídico.

“Quando você coloca founders de empresas diferentes para trabalhar em conjunto, percebe que eles se ajudam, pois passam por problemas semelhantes e compartilham soluções”, comenta o consultor jurídico Rafael Peixoto Abal

DA INCUBADORA PARA O MERCADO

Quem também viveu esse ciclo na incubadora foram os fundadores da Arvus, agrotech de Florianópolis que foi uma das pioneiras no desenvolvimento de tecnologia para agricultura de precisão no Brasil. Fundada em 2005, a empresa tinha como sede o apartamento de um dos sócios, mas que vinha acelerando e conquistando clientes de grande porte – período em que foram selecionados para a incubadora. 

“A empresa saiu mais preparada do ponto de vista de desenvolvimento de negócios, gestão administrativa e financeira, aspectos jurídicos e captação de recursos. As consultorias e sinergias entre as empresas proporcionaram uma aceleração na definição destes aspectos”, comenta Bernardo de Castro, um dos sócios fundadores da Arvus.

A empresa recebeu investimentos do fundo Criatec, foi listada em rankings como uma das PMEs que mais cresceram no país entre 2012 e 2013 – até serem adquiridos em 2014 pela Hexagon, uma multinacional sueca que transformou a sede da Arvus, em Florianópolis, em sede da divisão global de Agricultura, criada após este deal. Atualmente, esta infraestrutura tem mais de 160 funcionários e fornece tecnologias que convertem dados em informações inteligentes para controles de máquina precisos e fluxos de trabalho automatizados no agronegócio. 

Iomani Engelmann, presidente da ACATE: “o segredo do sucesso da incubadora é resultado do aperfeiçoamento constante da metodologia”. Foto: Divulgação

O período de expansão da Arvus coincidiu com os primeiros prêmios nacionais concedidos ao MIDITEC: em 2008, 2012, 2014 e 2016, a incubadora foi eleita como a melhor do país pela Anprotec (entidade que representa parques tecnológicos e incubadoras). E, alguns anos depois, o reconhecimento viria em escala internacional, com o MIDITEC referendado em três oportunidades (2018, 2019 e 2022) como uma das cinco melhores do mundo, de acordo com o ranking UBI Global.

O ex-incubado pela Pixeon e atual presidente da ACATE, Iomani Engelmann, testemunha há duas décadas a expansão do MIDITEC. “A incubadora e a metodologia formam, sem sombra de dúvida, uma forte engrenagem do nosso ecossistema. Pela metodologia, foram criadas grandes empresas, com formação adequada. Muitas delas foram investidas e outras foram compradas, gerando emprego e renda. Acredito que o segredo do sucesso da incubadora, que tem apoio do Sebrae, é resultado do aperfeiçoamento constante da metodologia de acompanhamento dos negócios”, atesta.

Para Sergio Viola, da JExperts, “o mais importante no MIDITEC foi a rede de relacionamento com empresas e empreendedores do ecossistema. Isso fez muita diferença na aquisição dos primeiros clientes e para trocarmos experiências sobre problemas que estávamos vivendo”.

Fonte: Por Redação SC Inova, scinova@scinova.com.br 

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