A tecnologia reduziu o esforço para encontrar informações, conhecer pessoas e até controlar a casa, mas essa facilidade também diminuiu a disposição para tarefas que exigem disciplina.
As atividades como estudar, se exercitar ou aprender algo novo passaram a ser vistas como pesadas, mesmo quando trazem benefícios claros.
Em entrevista à CNBC Make It, a psiquiatra Anna Lembke, da Universidade Stanford, afirmou que é possível reprogramar a mente para aceitar, e até mesmo gostar de desafios.
Segundo ela, o cérebro tende a evitar esforço quando a decisão é deixada para a última hora. Por isso, planejar com antecedência é a principal estratégia para vencer a resistência inicial.
Lembke explica que a pessoa deve decidir no dia anterior o que fará no dia seguinte, com horário e passos definidos. Ao transformar a tarefa em um compromisso prévio, o cérebro reduz a chance de desistência no momento do esforço.
Essa lógica já funciona em hábitos comuns, como escolher a roupa na noite anterior ou planejar as refeições da semana.
A preparação antecipa decisões difíceis e ajuda a controlar impulsos de curto prazo. Dessa forma, a mente passa a trabalhar a favor de objetivos de longo prazo, como saúde, aprendizado e organização pessoal.
Outro ponto destacado por Lembke é a importância de ter um parceiro de responsabilidade. Pessoas tendem a cumprir mais metas quando compartilham o objetivo com alguém. Estudos mostram que mudanças positivas em um parceiro aumentam as chances de o outro também mudar.
Atividades em grupo, como aulas de ginástica ou grupos de estudo, facilitam a constância. A presença de outras pessoas cria incentivo, compromisso e sensação de pertencimento, fatores que reduzem a chance de abandono.
O processo de mudança raramente é confortável no início. Lembke compara esse momento a uma balança entre prazer e desconforto. No começo, estudar ou se exercitar pesa mais no lado difícil, mas com o tempo o cérebro passa a associar essas ações a recompensas duradouras.
Ela também defende que falhas não devem gerar culpa excessiva. Metas rígidas demais aumentam a chance de frustração. Pequenos avanços já representam progresso e ajudam a manter a motivação ao longo do tempo.
Treinar o cérebro exige planejamento, apoio e paciência. Ao repetir escolhas conscientes, a mente aprende a lidar melhor com o esforço e passa a enxergar desafios não como castigo, mas como parte natural do crescimento pessoal.
Fonte: Fast Company / Guynever Maropo
Na era da hiperconectividade, o silêncio virou artigo de luxo, ou, pior, objeto de desconfiança. Pausar quase sempre é entendido como improdutividade. Mas, para o cérebro humano, o silêncio é exatamente o contrário: um estado fundamental de autorregulação.
Do ponto de vista neurocientífico, o silêncio é o caminho para que o cérebro integre experiências, consolide memórias e acione redes associativas ligadas à criatividade e à tomada de decisão. Sem ele, operamos no modo reativo, não reflexivo.
Historicamente, nosso cérebro evoluiu para associar silêncio a risco. Na natureza, momentos silenciosos costumam anteceder ataques, a presença de predadores ou ameaças ocultas. Por isso, o silêncio prolongado ativa o sistema de alerta: amígdala, eixo HPA e liberação de cortisol. A mente permanecia em estado de prontidão.
Hoje vivemos o oposto: hiperestimulação. Notificações, reuniões, demandas cruzadas, excesso de telas e falta de respiro nos mantêm em alerta constante – sem pausa, sem integração, sem processamento emocional. E os resultados são claros:
Recentemente, pesquisas passaram a indicar que o uso indiscriminado de IA generativa, como o ChatGPT, pode contribuir para a terceirização do pensamento. O risco não está na ferramenta em si, mas na perda do tempo de reflexão.
Raciocinar exige energia. Em um cérebro cansado, essa função tende a ser delegada. Assim, a criticidade diminui e, a médio prazo, o desenvolvimento profissional é comprometido.
É nesse cenário que práticas simples, porém consistentes, de pausa e silêncio ganham urgência:
Essas ações não são apenas “soft skills” ou boas intenções. São estratégias fundamentadas em neurociência para recuperar o equilíbrio neuroquímico e liberar o cérebro para a função mais nobre: pensar com qualidade, criar com intenção e liderar com coerência. Se o futuro do trabalho exige algo, é consciência mental – e ela não nasce do excesso. Ela nasce da pausa.
Em tempos de tantas distrações, talvez o melhor presente para quem lidera, ensina e inspira seja a oportunidade de parar. Silenciar com propósito. Reconectar com o que realmente importa. Uma provocação prática, sensorial e necessária para oxigenar a mente – e lembrar que foco, presença e criatividade também se cultivam no silêncio.
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