Poucas vezes na história da tecnologia um ano foi tão decisivo, tão simbólico e tão determinante quanto 2025 foi para a inteligência artificial. Foi quando a IA deixou de ser uma promessa restrita a laboratórios ou um artifício de produtividade empresarial para se transformar em força estruturante do tecido econômico, político e cultural global. Para empresários e empreendedores, 2025 não foi apenas o ano da consolidação da IA — foi o início de uma nova etapa civilizatória, onde os limites entre humano e máquina se tornaram mais porosos, mais criativos e, ao mesmo tempo, mais desafiadores.
A começar pelo campo técnico, testemunhamos uma revolução silenciosa e poderosa: os modelos de código aberto finalmente alcançaram — e em alguns casos superaram — os grandes modelos proprietários. Em janeiro, o lançamento do DeepSeek R1, na China, causou um terremoto silencioso no Vale do Silício. Treinado a um custo que beirava o simbólico diante de seus concorrentes ocidentais, o modelo open-source conseguiu rivalizar com os gigantes da OpenAI, Anthropic e Google. A comunidade global assistiu a uma corrida de liberalização forçada. Era o reconhecimento tácito de que a inovação mais potente em IA não viria apenas de núcleos fechados com bilhões de dólares em GPUs, mas de um ecossistema global descentralizado, onde talento, dados e colaboração passam a ter mais valor que capital.
O segundo vetor dessa transformação foi a consolidação de uma IA com raciocínio mais estruturado. Modelos como Gemini Pro, do Google DeepMind, começaram a demonstrar habilidades de encadeamento lógico e resolução de problemas complexos — alguns chegaram a ganhar medalhas em olimpíadas de matemática e até sugeriram teoremas matemáticos inéditos.
A IA deixou de ser uma máquina de autocomplete sofisticada e começou a se comportar como uma ferramenta de pensamento. Isso mudou o jogo para startups: o que antes era apenas automação ou resumo de texto virou planejamento, tomada de decisão e estratégia em tempo real. Com isso, surgiram os agentes autônomos — softwares baseados em IA capazes de executar múltiplas tarefas de forma proativa e adaptativa. Se em 2023 e 2024 eles eram experimentos promissores com pouco impacto prático, em 2025 eles entraram em produção: 62% das empresas entrevistadas globalmente disseram estar testando agentes em alguma área de seu negócio. De atendimento ao cliente à análise de dados, os agentes começaram a habitar o núcleo operacional das empresas.
É como se cada startup pudesse, a partir de agora, contratar um exército invisível de assistentes altamente especializados, prontos para trabalhar 24 horas por dia com foco em metas estratégicas.
E os limites dessa autonomia deixaram de ser apenas virtuais. A robótica, alimentada pelos avanços da IA generativa e multimodal, finalmente deu um salto de usabilidade. Robôs da Tesla, por exemplo, passaram a demonstrar movimentos delicados e seguros em ambientes físicos, e o ecossistema de robôs assistenciais, logísticos e industriais ganhou novo fôlego. Drones autônomos, veículos sem motorista e exoesqueletos inteligentes começaram a se disseminar silenciosamente em cidades e fábricas. A IA, antes confinada às telas, ganhou braços, pernas e rodas — e com isso, novas responsabilidades.
Com bilhões de dólares investidos globalmente apenas em IA generativa, 2025 se tornou o ano mais quente do capital de risco em tecnologia desde a bolha da internet. Startups de IA fecharam rodadas bilionárias, enquanto empresas tradicionais — como Disney, Oracle e SoftBank — passaram a adquirir ou se aliar diretamente a criadores de modelos fundacionais. Esse movimento gerou um ciclo de dependência curiosa: big techs investem em startups que compram infraestrutura das próprias big techs. Um ecossistema de retroalimentação que, embora arriscado, alimentou uma nova era de crescimento exponencial. E, claro, onde há aceleração, há também tensão.
O mundo em 2025 foi palco de debates políticos acalorados sobre o papel e os riscos da IA. Enquanto a União Europeia iniciou a implementação do AI Act — a legislação mais abrangente já escrita sobre o tema — os Estados Unidos mudaram de direção e adotaram uma postura de supremacia tecnológica, com investimentos de meio trilhão de dólares para liderar a corrida de data centers e chips. A China, por sua vez, jogou nos dois campos: promoveu modelos abertos revolucionários, mas com forte controle de conteúdo e supervisão estatal. Já a América Latina, especialmente o Brasil, concentrou esforços em construir marcos regulatórios, sem ainda aprová-los.
Em todos os casos, a IA precisa ser domesticada, mas sem frear seu ímpeto transformador.
Setores inteiros foram redesenhados:
À medida que entramos em 2026, o desafio é duplo: expandir com responsabilidade e consolidar com estratégia. A IA deixará de ser um diferencial competitivo e passará a ser um pré-requisito para competir. Estar de fora será o verdadeiro risco. Por isso, para os empreendedores e empresários que querem criar o futuro — e não apenas habitá-lo — é preciso pensar além do produto: em cultura, em ética, em escalabilidade. É hora de projetar empresas não apenas assistidas por IA, mas co-criadas com ela.
Negócios que nascem com o raciocínio distribuído, a adaptação contínua e a inteligência híbrida como fundamentos. Em 2025, a IA deixou de ser ferramenta e passou a ser linguagem. Em 2026, será dialeto nativo. E as startups que melhor falarem essa língua — com propósito, ética e visão — serão as que definirão os próximos capítulos da inovação global.
E se 2025 tiver sido apenas o ensaio geral? Se os modelos abertos da China, os agentes autônomos das startups do Vale, os robôs que começam a andar entre nós e os sistemas que aprendem a raciocinar por si mesmos forem apenas o prelúdio de algo maior, mais estrutural — uma transição de paradigma sobre o que significa pensar, decidir, criar e liderar? O que está em jogo não é apenas produtividade ou eficiência, mas a reescrita silenciosa das fundações do capitalismo, da política e da identidade humana.
A inteligência artificial está, além de substituindo tarefas, redesenhando possibilidades. Para os empreendedores atentos, a pergunta que precisa ser feita em 2026 não é “como uso IA no meu negócio”, mas “qual futuro quero construir — e como a IA pode ser meu sócio estratégico nessa arquitetura do novo?”
Porque os que liderarem agora, com propósito e imaginação, serão os que escreverão o código das próximas décadas. E não apenas com algoritmos, mas com visão.
REFERÊNCIAS
Fonte: SCInova / Por Eduardo Barbosa, CEO da Brognoli Imóveis e um dos responsáveis pelo Conselho Mudando o Jogo (CMJ) em SC e RS. Escreve sobre inteligência artificial no ambiente corporativo na série “Diários de IA”
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