O primeiro movimento que se consolida é a continuidade do ciclo de investimentos em infraestrutura tecnológica. A expansão da inteligência trouxe importante anúncios no primeiro trimestre, confirmando-se um vetor concreto de alocação de capital. Empresas globais seguem direcionando recursos para data centers, capacidade computacional e semicondutores, sustentando resultados robustos mesmo em um ambiente de maior complexidade geopolítica. O desempenho recente de grandes players industriais reforça que a digitalização deixou de ser uma agenda aspiracional para se tornar eixo estruturante de competitividade.
Esse ciclo tecnológico dialoga diretamente com um segundo movimento: a reorganização das cadeias produtivas. Ao longo do trimestre, deve ganhar ainda mais tração a lógica de diversificação geográfica baseada em alinhamento político e estabilidade institucional. A expansão de operações no México, na Índia e em outros mercados emergentes reflete uma estratégia que privilegia previsibilidade e resiliência operacional. O comércio internacional passa a operar com novos critérios, nos quais a proximidade geopolítica pesa tanto quanto a eficiência econômica.
É nesse contexto que a América Latina começa a ocupar um espaço mais relevante no radar global. A região passa a ser percebida não apenas como fornecedora de commodities, mas como um território com capacidade crescente de absorver investimentos produtivos, especialmente em energia, infraestrutura e serviços digitais.
O Brasil, em particular, encerra o primeiro semestre com sinais consistentes de fortalecimento dessa posição. O país consolidou um volume expressivo de investimentos estrangeiros diretos, com destaque para projetos ligados à transição energética e à expansão da matriz renovável. A combinação de segurança alimentar, abundância de recursos naturais e relativa neutralidade geopolítica tem funcionado como um diferencial competitivo em um ambiente global mais fragmentado.
O Brasil se apresenta como plataforma relevante para projetos de longo prazo, especialmente em setores que exigem escala, estabilidade e previsibilidade. Ao mesmo tempo, cresce a expectativa sobre a capacidade do país de capturar valor em cadeias mais sofisticadas, associadas à digitalização e à nova economia energética.
Outro ponto que ganha densidade ao longo do trimestre é a evolução da governança corporativa diante desse novo cenário. Ainda há lacunas importantes na incorporação da geopolítica e da inteligência artificial como ferramentas estratégicas dentro das organizações, mas o ambiente de 2026 vem pressionando empresas a avançar nessa agenda. O desafio deixa de ser apenas operacional e passa a envolver capacidade analítica, leitura de contexto e antecipação de movimentos globais.
O segundo trimestre também marca um período de maior clareza em relação ao custo de capital e às condições financeiras internacionais. Com a definição mais precisa das trajetórias de inflação e juros nas principais economias, empresas e investidores passam a operar com parâmetros mais estáveis para tomada de decisão. Isso favorece projetos estruturados, com visão de longo prazo e fundamentos sólidos.
Ao final de junho, o trimestre se encerra “simbolicamente” com a Copa do Mundo, um evento que historicamente reorganiza agendas, mobiliza investimentos e amplia a visibilidade global de regiões emergentes. Diferente dos campos, a expectativa sobre a atuação da América Latina — e especialmente do Brasil — é particularmente positiva. A região entra nesse ciclo não apenas como espectadora, mas como participante ativa de uma nova dinâmica econômica internacional.
O que se desenha, portanto, é menos um cenário de ruptura e mais um movimento de reposicionamento. O segundo trimestre funciona como uma janela estratégica para países e empresas que consigam alinhar ativos estruturais com capacidade de execução. Nesse contexto, a as empresas – e que são muitas – que não contam com um olhar especializado em geopolítica em sua operação, certamente cometerão erros poderão custar caro e talvez sejam irreversíveis no próximo ciclo.
Fonte: Economia SC / Leonardo Baldissera – Bacharel em Relações Internacionais pela UFSC, Mestre em Negócios Internacionais pela Université de Montpellier III, na França, e realizou estudos em Law & Economics pela Universidade de Lucerna, na Suíça. Foi bolsista da Fundação Lemann e atua com projetos de internacionalização de empresas e transformação digital, conectando o setor público e privado na América Latina e em mercados globais.
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