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[OPINIÃO] A orquestração e o foco das fontes de financiamento para a inovação nos ecossistemas

A solução para esse desafio certamente não estará em uma única empresa ou organização, mas sim a partir de uma abordagem coletiva, ecossistêmica

Foto: Divulgação (Fundação CERTI)

Frederick W. Smith, fundador da FedEx, tem uma famosa frase que diz: “Se olharmos historicamente, o que cria crescimento e riqueza é a inovação e o investimento, e o crescimento em escala – mais clientes.

Primeiramente, pode-se compreender que, apesar de ser um assunto mais frequentemente abordado nos últimos anos, a inovação sempre esteve presente na sociedade. Nomes diferentes eram utilizados para explicar a importância das organizações desenvolverem recursos estratégicos de forma contínua, para garantir sua competitividade, mesmo em tempos em que a concorrência não era tão acirrada e nem ocorria em escala global.

O fato é que, no século 21, inovar não é mais uma opção, especialmente para as empresas já estabelecidas. Para tanto, um dos pontos principais a serem compreendidos é sobre como garantir fluxos contínuos de investimentos para financiar a inovação. A solução para esse desafio certamente não estará em uma única empresa ou organização, mas sim a partir de uma abordagem coletiva, ecossistêmica.

Antes de pensar nas fontes de recursos, é fundamental compreender dois modelos fundamentais relacionados à jornada do desenvolvimento de inovações. Primeiro, saber os níveis de maturidade tecnológica estabelecidos pelo TRL (Technology Readiness Level), e depois verificar as etapas principais da jornada do empreendedorismo inovador.

O TRL tem sua origem na década de 1970 a partir dos trabalhos de desenvolvimento de inovações promovidos pela Nasa, agência espacial dos Estados Unidos. Na década seguinte o TRL foi oficialmente incorporado pela Nasa, com os 9 níveis utilizados atualmente, e anos depois começou a se tornar um padrão mundial, com os reconhecimentos da Comunidade Europeia e da norma ISO 16290:2013 (no Brasil NBR ISO 16290:2015).

Como o próprio nome diz, o TRL diz respeito às inovações tecnológicas e prevê que, quanto menor o nível de maturidade, maior a incerteza sobre o sucesso de uma nova tecnologia. Importante destacar que o termo ‘tecnologia’ pode ser entendido de forma bastante ampla, em diferentes áreas do conhecimento.

Os níveis de TLR são:

  • TRL 1 – Princípios básicos observados e relatados: estágio de pesquisa aplicada ainda de forma conceitual, muitas vezes sem uma correlação direta com um produto ou um desafio específico da sociedade. Normalmente realizado em Universidades ou Centros de Pesquisa.
  • TRL 2 – Conceito e/ou aplicação da tecnologia formulados: neste estágio se começa a perceber a correlação entre a tecnologia em desenvolvimento e os desafios existentes, com as primeiras modelagens de produto.
  • TRL 3 – Prova de conceito analítica e experimental de características e/ou funções críticas: quando as primeiras aplicações da nova tecnologia começam a ser desenvolvidas e testadas.
  • TRL 4 – Verificação funcional de componente e/ou subsistema em ambiente laboratorial: neste estágio os primeiros protótipos funcionais começam a passar por processos de validação, mas ainda em ambiente controlado.
  • TRL 5 – Verificação da função crítica do componente e/ou subsistema em ambiente relevante: estágio quando a nova tecnologia passa a ser validada em ambiente real.
  • TRL 6 – Demonstração do modelo de protótipo de sistema/subsistema em ambiente relevante: caso a validação aconteça no estágio anterior, a tecnologia recebe ajustes para iniciar as validações finais em ambiente real e ser preparada para ser levada ao mercado.
  • TRL 7 – Demonstração do protótipo de sistema/subsistema em ambiente operacional: neste estágio a nova tecnologia, já validada no estágio anterior em ambiente real, é preparada para ser introduzida no mercado, com foco principal na resolução de possíveis problemas de desempenho.
  • TRL 8 – Sistema real desenvolvido e aprovado: estágio quando a nova tecnologia está em fase de adoção pelo mercado.
  • TRL 9 – Sistema real desenvolvido e aprovado através de operações bem-sucedidas: estágio de maturidade e sucesso de uma nova tecnologia, que foi integrada e aceita pelo mercado e pela sociedade, de forma escalável.
“A aceleração vem para dar o suporte necessário, orientando e fornecendo recursos a fim de ajudar o empreendimento em estágio inicial a crescer rapidamente.” / Imagem: SC Inova/DALL-E

A partir dos níveis 3 ou 4 do TRL percebe-se uma perspectiva de levar uma inovação tecnológica ao mercado. Para tanto, deve-se entender, pelo menos em linhas gerais, quais são as etapas mais importantes da jornada do empreendedorismo inovador. Segundo o Sebrae, elas são:

  • Curiosidade: momento em que se decide iniciar uma jornada empreendedora, com o objetivo de atender uma necessidade real da sociedade ou do mercado por meio de uma inovação. Nesta fase, o mais importante é capacitar os empreendedores com conhecimentos e habilidades que serão necessárias para transformar uma inovação em um empreendimento, além de vislumbrar os desafios que estão por vir nas etapas seguintes.
  • Ideação: momento de transformar uma ideia em um empreendimento inovador, seja dentro de uma organização/empresa estabelecida, ou criando uma nova. Aqui, juntamente com uma inovação com TRL pelo menos 3 ou 4, deve-se compreender o que é necessário em termos de gestão, pessoas, finanças, processos, marketing, etc.
  • Operação: alguns modelos dividem esta etapa em ‘pré-operação’ e ‘operação’, e outros preferem chamar de ‘validação’. O importante, no entanto, é compreender que se tratam dos primeiros passos do empreendimento inovador no mercado, conquistando os primeiros usuários e clientes de forma sustentada. Nota-se também nesta etapa a aplicação do TRL em nível 6 ou 7.
  • Tração: uma vez que o empreendimento inovador conquistou seus primeiros clientes e começa a ganhar espaço no mercado, chega o momento de buscar tração, acelerando a aceitação da inovação no mercado. Percebe-se aqui uma clara relação com o TRL em nível 8.
  • Estrela: modelos similares chamam esta etapa de ‘expansão’, quando se trata de um empreendimento inovador em fase de consolidação, quando já experimentou um crescimento consistente e boa aceitação pelo mercado. Em termos de maturidade tecnológica, percebe-se neste momento o TRL 9.

OS RECURSOS NECESSÁRIOS PARA CADA ETAPA

Uma vez conhecido o modelo TRL e a jornada do empreendedorismo inovador, torna-se importante verificar duas coisas fundamentais: primeiro, que serão necessários investimentos e, quanto maior o nível de novidade tecnológica, maior será a necessidade de recursos financeiros e econômicos; segundo, para cada uma das etapas ou níveis de maturidade, haverá a necessidade de mecanismos específicos de investimento ou financiamento da inovação.

Este talvez seja um dos principais pontos a serem trabalhados nos ecossistemas de inovação do Brasil, já que historicamente o país tem investido pouco nesse sentido. Dados recentes mostram que o equivalente a pouco mais de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) é investido em inovação por aqui, bem menos do que países como EUA, Japão e Alemanha, que investem mais de 3% do PIB, e muito menos que Coréia do Sul e Israel, que investem mais de 4% do PIB. 

Os investimentos no Brasil são mal distribuídos e há uma dificuldade histórica em transformar os resultados das pesquisas realizadas nas universidades e centros de pesquisa em inovações que cheguem efetivamente à sociedade e aos mercados.

Além disso, percebe-se que a maior parte dos ecossistemas locais de inovação ainda possuem uma grande dificuldade em articular e integrar a disponibilidade de mecanismos de financiamento e investimentos com as necessidades dos empreendimentos inovadores. Nota-se claramente que, apesar de haver muitos serviços de apoio ao empreendedorismo inovador nas suas diferentes fases, não se percebe a adequação e integração de mecanismos de financiamento e investimento, públicos e privados, para cada uma das etapas da jornada do empreendedorismo inovador e nem dos níveis de TRL de cada empreendimento.

A solução para essa situação fundamentalmente passa por uma melhor organização e articulação dos ecossistemas locais de inovação. Primeiro, é necessário compreender que mecanismos de investimento e de financiamento sempre buscam definir um escopo de atuação, frequentemente chamados de ‘tese de investimento’ e ‘linha de financiamento’, respectivamente. Ou seja, os recursos não são disponibilizados amplamente para a inovação, eles são destinados para determinados segmentos de mercado ou áreas de conhecimento.

A IMPORTÂNCIA DOS CLUSTERS PARA OS ECOSSISTEMAS

Por isso é tão importante que os ecossistemas tenham seus clusters para a inovação, considerando inicialmente aqueles segmentos mais importantes para a sua própria economia, com disponibilidade de empresas estabelecidas, cursos de formação, centros de pesquisa e políticas públicas. Adicionalmente também podem ser criados clusters de setores portadores de futuro, onde as competências locais podem receber um upgrade para projetar a economia do território para o futuro.

Com isso, além da disponibilização dos serviços de apoio para cada etapa do empreendedorismo inovador, deve-se também criar mecanismos de financiamento e investimento para cada uma dessas etapas, considerando também os níveis de TRL de cada empreendimento. Considerando que no Brasil há uma cultura bastante avessa ao risco, especialmente no setor privado, nota-se que para as primeiras etapas do empreendedorismo inovador, especialmente na curiosidade, ideação e operação/validação, e nos primeiros níveis de TRL, os recursos são tipicamente oriundos da iniciativa pública. 

No entanto, como essas etapas são responsáveis pela ‘boca do funil’, ou seja, pela geração das ideias e dos empreendimentos inovadores embrionários, é necessário que os clusters articulem duas frentes de trabalho: primeiro, garantir que a iniciativa pública garanta fluxos contínuos e confiáveis de capital para financiar a inovação, pois hoje há uma instabilidade grande, com períodos de ‘seca’ grande e atrasos nos repasses de recursos; segundo, chamar a atenção da iniciativa privada, para que também comece a investir nessas etapas, especialmente na Pesquisa e no Desenvolvimento de novas tecnologias. 

O motivo para isso é relativamente simples de se compreender: as inovações tecnológicas que mudam o mundo, nasceram e continuarão nascendo nos laboratórios das universidades e dos centros de pesquisa.

Além dos recursos econômicos e financeiros para o suporte individual às inovações e empreendimentos inovadores, nessas etapas torna-se imprescindível financiar serviços coletivos que reduzem o risco dessas iniciativas. Nas etapas iniciais devem ser priorizados os eventos – sejam de capacitação, de conexão, ou de networking para a inovação -, as pré-incubadoras e as incubadoras de empreendimentos inovadores.

Considerando o alto risco dessas primeiras etapas do empreendedorismo inovador e níveis iniciais de TRL, mecanismos de subvenção econômica têm sido os mais utilizados e parecem ser os mais adequados. Para empresas estabelecidas, as linhas de crédito com altos níveis de subsídios (idealmente, ‘juro zero’), são as mais adequadas para este momento.

Para as etapas subsequentes dos negócios inovadores, quando tanto as tecnologias quanto os empreendimentos em si foram validados pelo mercado, torna-se necessário garantir capital para que todo o potencial inovador seja realizado, gerando escala no mercado e na sociedade. Nas etapas de tração e consolidação, bem como nos níveis de TRL mais altos, a maior parte dos riscos – especialmente tecnológicos e regulatórios – foram superados. No entanto, o volume de capital necessário para proporcionar um crescimento consistente desses empreendimentos é muito maior do que nas etapas e níveis anteriores.

Além da disponibilização dos serviços de apoio para cada etapa do empreendedorismo inovador, deve-se também criar mecanismos de financiamento e investimento para cada etapa. Imagem: SC Inova/DALL-E

Nessas fases, também não se pode esquecer de que são necessários recursos para garantir o financiamento dos serviços de apoio ao empreendedorismo inovador, especialmente as aceleradoras e os programas de venture building. Esses serviços podem continuar contando com recursos públicos, mas precisam receber muito mais recursos da iniciativa privada.

No caso dos investimentos propriamente nos empreendimentos inovadores que estão em tração ou consolidação, percebe-se uma vocação natural para que sejam disponibilizadas fontes de investimentos privados, oriundos principalmente dos veículos de ‘Capital Empreendedor’ (Venture Capital) e dos movimentos de ‘Fusões e Aquisições’ (M&A – Mergers and Acquisitions) realizados por grandes empresas, pois o ROI (Retorno sobre o Investimento) fica mais claro.

Ao conhecer as ‘amarras’ burocráticas do setor público, nota-se que esse tipo de investimento direto em empresas, feito a partir de recursos de fontes públicas, não parece ser o mais adequado. Entretanto, bancos públicos e privados podem garantir linhas de crédito mais robustas e específicas para empreendimentos inovadores em momentos de oportunidade de grande crescimento, considerando principalmente o fato de que, normalmente, esses negócios não possuem garantias tangíveis e precisam de taxas de juros competitivas com o mercado internacional.

MAPEANDO (E ORQUESTRANDO) AS FONTES LOCAIS DE FINANCIAMENTO

Mesmo compreendendo quais os tipos de oferta de financiamento e de investimento, além da importância do foco por meio dos clusters de inovação, é fundamental criar uma lógica que integre as fontes de capital disponíveis em cada território com as respectivas etapas da jornada de cada empreendimento, junto com os níveis de TRL de cada inovação tecnológica. Hoje percebe-se uma dificuldade muito grande dos empreendedores para encontrar as fontes de recursos mais adequadas conforme o momento do seu empreendimento, pois as informações sobre isso estão muito dispersas. Mesmo quando a fonte de recursos é encontrada, percebe-se ainda uma dificuldade muito maior para compreender como desenvolver e submeter uma proposta, pois os textos são difíceis de compreender por pessoas que não são especialistas na área financeira.

Portanto, há uma ação urgente que precisa ser realizada pelas governanças dos ecossistemas, especificamente pelos clusters de inovação. É necessário priorizar a gestão do conhecimento sobre esses mecanismos de financiamento e investimento, começando por um mapeamento daquilo que está disponível no território. Em seguida se deve fazer uma orquestração, gerando um fluxo de conexão entre os mecanismos de acordo com os níveis de TRL e as etapas do empreendedorismo inovador, considerando tanto os empreendimentos individuais quanto os serviços de apoio. Deve-se criar um portfólio que gere uma espécie de ‘esteira’ de opções de capital para cada momento dos empreendimentos inovadores. 

Sabendo o que existe no território, a governança do cluster poderá identificar ‘áreas de sombra’, onde houver pouca ou nenhuma disponibilidade de capital, seja na forma de financiamento ou investimento. Assim, podem ser desenvolvidas ações para implantar ou atrair para o território aquelas fontes de capital com pouca disponibilidade na região.

Por fim, o cluster também deve capacitar e disponibilizar serviços de suporte para a captação de recursos, com especialistas nas áreas de projetos, do direito e da contabilidade, para capacitar e auxiliar os empreendedores na escolha do melhor mecanismo de acordo com o momento do seu empreendimento, bem com na submissão dos projetos e na prestação de contas.

Fonte: Por Marcus Rocha,  Especialista em Ecossistemas e Habitats de Inovação. Escreve mensalmente sobre o tema no SC Inova

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