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[OPINIÃO] Clusters de Inovação: do planejamento à ação (parte I)

O que os bem-sucedidos ecossistemas de inovação tem em comum? Arranjos (grupos, núcleos, comunidades) atuando em um escopo econômico bem definido, também conhecido como clusters.

Foto: Proxyclick (Unsplash)

Um ponto em comum nos ecossistemas de inovação mais bem-sucedidos ao redor do mundo é a existência de arranjos – núcleos, grupos, comunidades, etc. – especializados, com um escopo econômico de atuação bem definido. Tecnicamente, esses arranjos são chamados de ‘clusters para a inovação’.

CLUSTERS DE NEGÓCIOS E CLUSTERS DE INOVAÇÃO

Nota-se que esta expressão parte da compreensão da importância dos ‘clusters de negócios’ sugeridos por Michael Porter no artigo “The Competitive Advantage of Nations” (A Vantagem Competitiva das Nações), publicado na revista Harvard Business Review em 1990. Apesar de não trazer uma definição direta, Porter sugere que um ‘cluster de negócios’ considera um grupo de empresas e instituições de um setor ou segmento econômico específico, que são interconectadas e localizadas próximas umas das outras em termos geográficos, e que trabalham juntas para obter maior vantagem competitiva.

Como a inovação é um dos componentes mais importantes para a garantia de vantagem competitiva sustentada para as organizações, é natural que os clusters de negócios naturalmente também sejam clusters de inovação. Um dos primeiros estudos desta evolução do conceito original aparece no artigo “Global networks of clusters of innovation: Accelerating the innovation process“, publicado em 2009 por Engel e del-Palacio na revista Business Horizons. A partir da definição e dos componentes básicos de um cluster de negócios – principalmente a interconectividade de atores, o escopo econômico e a área geográfica -, um cluster de inovação é entendido como um ambiente que favorece a criação e o desenvolvimento de empreendimentos com alto potencial e é caracterizado pela alta disponibilidade e mobilidade de recursos, incluindo pessoas, capital e informação.

O primeiro passo, portanto, para criar um cluster para a inovação em um ecossistema, é identificar a existência – ou não – de um cluster de negócios. Se não houver, há a oportunidade de criar ambos ao mesmo tempo. No entanto, fica a dúvida sobre quais critérios devem ser utilizados para definir o escopo de atuação do cluster, ou seja, qual setor ou segmento de mercado serão compreendidos para este arranjo.

O INÍCIO DE UM CLUSTER: DEFININDO ESCOPO E MAPEAMENTO DE POTENCIAIS PARTICIPANTES

Apesar de não haver uma fórmula ou modelo único – uma “receita de bolo” – deve-se partir das vocações econômicas já desenvolvidas no território. Deve-se buscar dados secundários de cada um dos setores ou segmentos de mercado que trazem maior movimentação econômica, o que pode ser medido por informações secundárias do território tais como Produto Interno Bruto (PIB), Valor Agregado Fiscal (VAF), Empregos, Disponibilidade de cursos de formação ou capacitação, Existência de Instituições de Ciência e Tecnologia (ICT) e suas respectivas linhas de pesquisa, Investimentos em Inovação por setor/segmento, etc.

Uma vez identificado um escopo mais ou menos bem definido, deve-se mapear os respectivos atores-líderes, a partir de uma abordagem ecossistêmica. São organizações tais como:

  • Empresas que atuam diretamente na cadeia produtiva do escopo identificado, ou que fornecem soluções para essa cadeia produtiva, tais como tecnologias, serviços, recursos financeiros, etc.;
  • Organizações de Ensino e/ou Pesquisa que possuem cursos de formação ou linhas de pesquisa relacionados às áreas de conhecimento do escopo identificado;
  • Organizações Governamentais que atendam e/ou definam políticas públicas que afetam a cadeia produtiva do escopo identificado;
  • Organizações da Sociedade Civil que sejam stakeholders relevantes para a cadeia produtiva do escopo identificado.

Várias outras organizações podem ser mapeadas durante este trabalho. No entanto, sem dúvida as mais importantes são as empresas, pois são as responsáveis pelo empreendedorismo e pela movimentação econômica, além de conhecer bem o mercado relacionado ao escopo que foi identificado.

PROPOSTA DE VALOR DO CLUSTER

Uma vez que os atores foram mapeados, é fundamental identificar quais são as pessoas relacionadas a essas organizações que possuem visão mais empreendedora e inovadora, pois são aquelas que terão maior disposição para movimentar o que futuramente será o cluster de negócios e de inovação. Para tanto, é fundamental que, desde o início, haja uma proposta de valor muito clara, indicando quais serão os retornos esperados por quem investirá seu tempo e seus recursos no cluster.

Novamente, não há uma receita de bolo. Mas há algumas questões em comum que podem ser observadas. No geral, a proposta de valor de um cluster de inovação deve deixar claro que todas as organizações participantes terão oportunidades para criar maior vantagem competitiva, seja pelo desenvolvimento de inovações (que os concorrentes não têm, ou, se têm, são inferiores), pela capacidade em investir primeiro em novos empreendimentos inovadores gerados dentro do cluster, e pela possibilidade de comprar ou contratar, antes que os concorrentes, soluções inovadoras desenvolvidas por atores do cluster.

Por ser um arranjo associativista, um cluster naturalmente se torna um ambiente empreendedor, onde as inovações são desenvolvidas de maneira aberta.

Ou seja, a partir de desafios compartilhados pelos membros do cluster, soluções inovadoras – inéditas ou significativamente melhoradas em relação ao que existe atualmente no mercado – passam a ser criadas de forma coletiva, por redes de participantes do cluster que se unem com o propósito de inovar.  

Especialmente para as empresas e empreendedores, a proposta de valor precisa deixar claro que o investimento na participação no cluster poderá se traduzir em oportunidades para o aumento da sua competitividade, principalmente considerando os desafios dos atuais mercados globais. Isso deve se traduzir no desenvolvimento de inovações e de negócios inovadores altamente competitivos, regional, nacional e internacionalmente.

Para as instituições de ensino ou de pesquisa, deve haver a percepção de que fazer parte do cluster se traduzirá em uma maior integração entre os trabalhos de pesquisa e as necessidades da sociedade/mercado, em mais oportunidades para o desenvolvimento de atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D) aplicadas para solucionar desafios reais, e também em maiores chances de trabalho para pesquisadores e alunos.

As organizações governamentais precisam perceber que o cluster reforçará a competitividade das empresas estabelecidas no território e também criará novas empresas altamente competitivas, especialmente startups e scale-ups. Isso trará melhoria em indicadores fundamentais para a administração pública tais como arrecadação tributária, renda das pessoas que vivem no território, turismo de negócios, oportunidades de trabalho decente, educação, e até mesmo movimentação econômica relacionada ao turismo de negócios.

Até as organizações da sociedade civil precisam ver valor no cluster. Quando bem-sucedido, este arranjo passa a acelerar a movimentação econômica no território, necessitando de cada vez mais pessoas qualificadas. Havendo uma articulação adequada entre os participantes do cluster, é possível desenvolver ações de capacitação que podem proporcionar oportunidades de trabalho e de empreendedorismo para toda a população local, especialmente aquelas pessoas em situação vulnerável. Além disso, o cluster poderá realizar trabalhos para o desenvolvimento de inovações relacionadas aos desafios sociais ou ambientais do seu escopo de atuação.

A proposta de valor de um cluster de inovação deve deixar claro que todas as organizações participantes terão oportunidades para criar maior vantagem competitiva. / Foto: Elis Pereira

MOVIMENTANDO O CLUSTER

Uma vez definida uma proposta inicial de escopo de atuação, identificada a proposta de valor e sensibilizadas as principais lideranças dos atores que foram mapeados, deve-se iniciar a movimentação do cluster, sempre com o foco no empreendedorismo inovador. Considerando as melhores práticas de inovação aberta, o mais importante é sempre buscar o desenvolvimento de redes para o desenvolvimento de soluções inéditas ou significativamente melhoradas – em relação ao que existe atualmente – para os desafios dos participantes do cluster.

No entanto, para o começo, as recomendações são definir mais claramente o escopo, juntamente com o não-escopo. Isso dará foco sobre em quais áreas o cluster trabalhará, e em quais não irá trabalhar. Isso não estará ‘escrito na pedra’, para todo o sempre, pois pode ser revisado a qualquer momento; mas deve ser comunicado continuamente a todos os participantes, para maior clareza em relação aos trabalhos que serão realizados.

A adoção de práticas Lean (Enxutas) parece ser bastante indicada para o desenvolvimento de clusters de inovação. As ações a serem desenvolvidas, tais como eventos, capacitações, serviços de apoio ao empreendedorismo inovador, entre tantas, devem fazer parte de uma espécie de ‘portfólio’ de soluções do cluster para os seus membros. Nesse sentido, deve-se compreender e criar um ‘Mínimo Produto Viável’ do cluster, ou seja, um primeiro portfólio de soluções que traduzam a proposta de valor aos seus participantes, ao mesmo tempo em que ajude a trazer novos membros.

Ainda na abordagem Lean, deve-se identificar os ‘early adopters‘, ou seja, aquelas empresas e instituições que têm maior interesse em participar de iniciativas inovadoras e/ou associativistas. Também é importante estabelecer critérios para medir e melhorar a atuação do cluster de inovação.

Fonte: Por Marcus Rocha, Especialista em Ecossistemas e Habitats de Inovação. Escreve mensalmente sobre o tema no SC Inova. 

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