Durante anos, inovação foi confundida com sofisticação.
A crença dominante dizia que as maiores transformações tecnológicas aconteceriam nos setores mais digitalizados, mais eficientes e mais “prontos”, entretanto, a história recente mostra exatamente o contrário. As rupturas mais profundas tendem a surgir onde o desconforto é estrutural, onde o trabalho é pesado, fragmentado e mentalmente exaustivo. É nesses ambientes que a inteligência artificial deixa de ser apenas mais uma ferramenta e passa a operar como um salto de paradigma.
Neste sentido, precisamos atentar para o avanço da IA em setores considerados “atrasados”, que nos revela algo essencial: a adoção não acontece porque a tecnologia é melhor, mas porque ela torna insustentável continuar como antes.
Em mercados emergentes, o celular não venceu o computador porque era mais poderoso, mas porque eliminava etapas, custos e aprendizados intermediários, o mesmo ocorreu com pagamentos móveis no Quênia e na China, que pularam cartões de crédito e criaram sistemas mais simples, rápidos e intuitivos, enquanto economias maduras ficaram presas a soluções “boas o suficiente”. A IA segue exatamente essa lógica, setores como agricultura, construção, direito, hotelaria e manufatura não resistem à inovação por ignorância, mas porque o custo percebido da mudança sempre foi maior do que o benefício prometido. Sistemas SaaS exigiram migração, treinamento, integração e adaptação cultural, pedindo muito esforço antes de entregar valor real.
A IA generativa inverte essa equação ao atuar diretamente no ponto de maior fricção: ela conversa, executa e entrega o resultado final quase instantaneamente, sem exigir que o usuário reorganize mentalmente seu fluxo de trabalho, assim, o que muda não é apenas a eficiência, mas a experiência psicológica da mudança. Quando o esforço cognitivo cai drasticamente, a resistência desaparece.
O verdadeiro salto tecnológico acontece quando o valor percebido explode e o peso da transição praticamente some. É por isso que a IA não precisa “substituir” sistemas antigos nesses setores, ela simplesmente os torna irrelevantes ao oferecer respostas imediatas onde antes havia burocracia. Há também um efeito silencioso, porém decisivo, de democratização: pessoas que nunca participaram de certos processos passam a fazê-lo porque as barreiras técnicas deixam de existir.
Assim como aplicativos transformaram qualquer motorista em um potencial taxista, a IA transforma leigos em criadores, operadores e decisores. O foco deixa de ser aprender o sistema e passa a ser resolver o problema. A atenção, antes drenada por tarefas repetitivas e escolhas inúteis, é redirecionada para julgamento, estratégia e contexto, onde casos como o da EvenUp ilustram esse movimento ao não vender “software jurídico”, mas entregar diretamente o ativo mais valioso do processo: um documento pronto, quase perfeito, economizando horas de trabalho e reduzindo drasticamente o custo mental da tarefa. Quando isso acontece, a tecnologia deixa de ser percebida como inovação e passa a ser percebida como alívio.
E quando um novo padrão de alívio se estabelece, voltar ao antigo modelo se torna emocionalmente caro demais.
A grande lição é que setores considerados arcaicos carregam, paradoxalmente, uma vantagem competitiva: a ausência de sistemas intermediários cria um terreno fértil para saltos radicais. Uma vez que esse novo paradigma se consolida, a fidelidade tende a ser alta, pois esses setores trocam de “sistema operacional” muito raramente.
Para empreendedores e líderes, fica o alerta: o maior erro é tentar competir onde o software já é confortável. As verdadeiras oportunidades estão onde o esforço foi naturalizado, onde o cansaço virou rotina e onde uma solução simples, integrada e intuitiva pode redefinir o que as pessoas consideram aceitável.
A janela está aberta, mas, como a história mostra, ela não permanece assim por muito tempo.
REFERÊNCIAS
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