Durante grande parte da história humana, jogos de tabuleiro foram muito mais que meros entretenimentos: eles eram ferramentas de aprendizagem, rituais religiosos, demonstrações de estratégia e até símbolos de status social. Muito antes da popularização de jogos modernos como xadrez, Monopoly ou Scrabble, povos de diferentes continentes desenvolveram competições que desafiavam a mente, reforçavam tradições culturais e fortaleciam laços comunitários.
Estudos arqueológicos, pinturas e textos antigos revelaram que muitos desses jogos sobreviveram, em certo grau, até os dias atuais — seja por meio de regras preservadas, peças reconstruídas ou tradições que evoluíram ao longo dos séculos.
Um dos primeiros e mais conhecidos jogos de tabuleiro é o Senet, originário do antigo Egito por volta de 3100 a.C. — época em que a Primeira Dinastia ainda estava em transição de poder. Essa datação o coloca entre os primeiros jogos que chegaram até nós de forma documentada. Placas de madeira com 30 casas — dispostas em três fileiras de dez — foram encontradas em tumbas reais e residências nobres, demonstrando sua ampla circulação entre as classes sociais.
Inicialmente, Senet era basicamente um jogo de corrida entre dois participantes. Em vez de dados, os jogadores lançavam paus ou ossos marcados para determinar seus movimentos e competiam para levar seus 5–7 tokens até o fim do tabuleiro. Porém, com o tempo, sua importância cultural evoluiu: não era mais apenas uma forma de lazer, mas também um simulador simbólico da jornada para a vida após a morte.
Segundo pesquisadores, enquanto alguns tabuleiros antigos eram simples, versões posteriores exibiam hieróglifos que correspondiam a aspectos religiosos e mitológicos do além-tumular. Ao alcançar certas casas, os jogadores não apenas avançavam no jogo — acreditava-se que eles também superavam provações da alma e alcançavam a presença de deuses como Re-Horakhty, símbolo do renascimento e da luz.
Outro jogo que nos fascina hoje é o chamado Jogo Real de Ur, descoberto em túmulos da antiga cidade de Ur — na Mesopotâmia — por Sir Leonard Woolley entre 1922 e 1934. Datado de cerca de 4.500 anos atrás, ele é um exemplo clássico de como sociedades antigas abordavam estratégia e sorte ao mesmo tempo.
Os tabuleiros encontrados, ricos em decoração com madrepérola e lápis-lazúli, tinham uma estrutura semelhante ao Senet, mas com 20 casas organizadas de forma diferente: indicações de “casas de sorte” aumentavam ou protegiam movimentos, e lançamentos de ossos determinavam o avanço das peças.
Graças a tablaturas cuneiformes traduzidas por estudiosos como Irving Finkel, temos hoje regras detalhadas desse jogo. Isso permitiu que o Jogo Real de Ur não apenas fosse reconstruído, mas também ensinado e jogado em contextos modernos — uma verdadeira ponte entre passado e presente.
No mesmo Egito antigo, encontraram-se tabuleiros do jogo Mehen, cujo nome remete à serpente que enrola o campo de jogo em espiral. Datado entre aproximadamente 3100 e 2300 a.C., Mehen envolvia entre dois e seis participantes que operavam peças em um percurso que imitava o movimento das cobras.
Infelizmente, as regras concretas desse jogo se perderam no tempo. O que os arqueólogos sabem hoje provém de descrições fragmentárias e de comparações com outros jogos antigos de percurso: peças possivelmente eram deslocadas ao longo da espiral, e o objetivo poderia ter sido similar a jogos de corrida, mas com variações culturais específicas.
Indo mais para o norte e para o oeste, um jogo que marcou época na Europa antiga foi o Nine Men’s Morris. Evidências arqueológicas sugerem que o jogo já era praticado por volta de 1400 a.C. — e versões dele foram encontradas espalhadas por Grécia, Noruega, Irlanda, França e Inglaterra.
Com regras que lembram o moderno jogo de damas, Nine Men’s Morris pedia que cada jogador movimentasse nove peças em um tabuleiro com linhas interconectadas, formando “moinhos” (linhas de três peças) para capturar peças adversárias. Apesar de simples em conceito, sua presença constante na Europa medieval e até referências literárias, como em obras de Shakespeare, demonstram sua longevidade cultural.
Na antiga Escandinávia, destacou-se o conjunto de jogos conhecidos como Tafl — entre os quais Hnefatafl era o mais popular. Diferente de jogos simétricos comuns, Tafl colocava lados desiguais em confronto: um rei cercado de defensores enfrentava um número maior de atacantes. Essa dinâmica criava jogos intensamente estratégicos, onde movimentação e bloqueios determinavam a vitória ou a captura do rei.
Já no coração do Império Romano, o Ludus Latrunculorum era uma forma popular de testar habilidade militar e tática. Jogadores manobravam peças por grades de 17×18 quadrados ou mais, cercando peças adversárias para capturá-las — um reflexo antigo de conceitos modernos de guerra e estratégia.
Na antiga Mesoamérica, especialmente entre os astecas, o jogo Patolli tinha componentes de aposta que iam bem além de simples brincadeira. Além de competir para mover peças em um percurso cruzado, os participantes podiam apostar bens materiais e até suas próprias vidas. Essa prática, registrada por cronistas espanhóis do século XVI, mostra como jogos podem refletir valores culturais e rituais sociais de maneira intensa.
Finalmente, nenhuma lista de jogos antigos estaria completa sem mencionar Chaturanga — o ancestral direto do xadrez moderno. Nascido na Índia por volta do século VI d.C., Chaturanga incorporava quatro divisões do exército (infantaria, cavalaria, elefantes e carros de guerra), cada uma representada por peças específicas. Jogadores lançavam paus para determinar movimentos, misturando sorte e estratégia em um tipo de “simulação militar” que evoluiu para o xadrez conhecido hoje.
Fonte: AH Aventuras na História / Por: Por Felipe Sales Gomes
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